Um dia inteiro sem celular

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Quinta-feira, 31 de outubro de 2019.
Meu dia das bruxas foi esquecer o celular em casa.

Você também pode ouvir esse texto em áudio. Ele virou um episódio do podcast Vida Leve:

É real, fiquei um dia inteiro sem celular!

Percebi isso só quando eu já tinha atravessado a ponte para o trabalho, marido atrasado.

Quer voltar?“, ele perguntou.

Respirei fundo e respondi que não.

Mal sabia eu da experiência que estava prestes a viver com aquela negativa. Como eu ia viver? Um dia inteiro sem celular. Um dia inteiro sem olhar o Instagram?

Meu Deus, eu sou influenciadora digital, como vai ser isso?
Tá, acho que já está na hora de assumir que eu uso esse tal de ser influenciadora digital como uma linda e bela desculpa para não abrir mão de alguns hábitos que eu ainda não estou pronta para me despedir. Como não dormir com o celular do lado da cama? Como não abrir o celular como a primeira coisa assim que acordo? Como não dormir com ele na mão, sem perceber?

Eu sinceramente quero muito largar diversas dessas atitudes, mas enquanto isso não acontece, sigo usando o rótulo “sou influenciadora digital e não posso desligar.”

Que demodê, não é mesmo?
Mas, vamos à realidade nua e crua: lembrei que existe Whatsappweb e fui correndo até a minha mesa do trabalho para confirmar que enquanto houvesse internet, eu conseguiria pelo menos usar o Whatsapp. Ah, tantas coisas “inadiáveis” para resolver. E se alguém me ligasse? E se saíssem os resultados dos exames da minha cachorrinha? E a minha viagem prevista para amanhã?

E se…? E se…? Essa ansiedade toda gerada por não estar no mundo digital tem um nome lindo: FOMO. Fear of Missing Out.
Ou, em bom português, medo de estar perdendo algo. Você já sentiu isso? É estranho. Até porque, se algo realmente sério/grave/urgente acontecer, vão dar um jeito de se comunicarem com a gente. Meu telefone fixo no trabalho está aqui, lindo, belo e sem nenhuma – repito: nenhuma ligação.

9h15 cheguei no trabalho. Vi que o WhastsappWeb estava funcionando, mas logo me bateu um desepero: até quando? Corri, avisei todo mundo que eu precisava: chefe, veterinária, marido, enfim, tudo o que era urgente eu resolvi bem rápido para não ficar na mão, já que uma hora a minha bateria ia acabar e eu ia sim ficar incomunicável. O tal do um dia inteiro sem celular estava só começando.

11h50 tive um choque! Vi que já estava quase na hora do almoço e eu tinha produzido muito no trabalho! Eu já tinha feito 50% a mais do que costumo fazer em um dia inteiro, em apenas meio período. Chocante! Me senti a verdadeira mulher maravilha.

Saí para almoçar cheia de poder. O tal de um dia inteiro sem celular significa também se alimentar sem celular por perto, decidi aproveitar um almoço sozinha. Prestei atenção na minha comida, olhei bem para os alimentos, prestando muita atenção no que eu sentia ao olhar para cada um deles antes mesmo de me servir. Comi tranquila, sem me preocupar em “aproveitar o tempo” e ir respondendo umas mensagens, resolvendo coisas enquanto mastigava. Preciso assumir: FOI LINDO!

um dia inteiro sem celular

Terminei de me alimentar e fui andar na feira orgânica que tem no meu trabalho. Em dois meses, foi a primeira vez que eu tomei vergonha na cara para ir. O que um dia inteiro sem celular não é capaz de fazer, não é mesmo? Olhei tudo, até coisas que eu nem precisava, só para ver o que me dava vontade de consumir, o que eu sinto falta de ter em casa…voltei para a minha mesa. Tranquila.

14h34. O whatsappweb segue funcionando. Mas essa ideia de ficar sem celular já perdeu a graça. A impaciência chegou, está parecendo aqueles primeiros dias que a gente fica sem comer açúcar, que bate até a irritação, sabe?!

19h24. Fiquei irritada comigo mesma por não ter voltado pra casa para buscar o celular. Não paro de pensar “Eu podia ter resolvido tanta coisa hoje!” . Dou uma respirada fundo e me pergunto que coisas seriam essas. Olho pro meu planner e vejo que só um login de um aplicativo específico que eu precisava do meu celular aqui para resolver, todo o resto está certo. Inclusive um agendamento urgente no dentista, a confirmação da ida da diarista e a viagem que me deixou ansiosa mais cedo e que, por acaso caiu.

Fim de dia, tento seguir meu objetivo de deixar o celular de lado depois das nove da noite e rio sozinha de tudo o que vivi no dia. Me senti ridícula em diversos momentos por sentir tanta falta de um negócio que me é enorme fonte de ansiedade durante o dia, uma coisa que eu pego na mão, sem nem saber exatamente o que estou procurando ali.

Apesar desses sentimentos ambíguos, termino esse dia mais calma, posso dizer que até plena, me sentindo mais livre. Às vezes, tudo o que a gente precisa é de sustos como esse para colocar valor no que exatamente tem valor.

Ter um celular que resolve a vida é lindo. Mas lembrar que um celular não é a vida é mais lindo ainda.

Existem estudos que mostram que o nosso cérebro não diferencia as horas de tela trabalhando, das horas de tela em lazer. É tudo tela, é tudo essa luz azul que inibe a produção de melatonina, um hormônio super importante para a gente dormir bem e sentir que descansou.

Espero que esse meu relato te faça viver mais tempo offline, se dedicando ao que realmente importa.

Mas se você quiser ouvir os podcasts do Vida Leve no banho ou enquanto toma café da manhã, eu não vou achar ruim não. 😉

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