Desculpe chefe. Minha família vem primeiro!

familiaprioridade

Em 2008, quando me mudei de São Paulo para Brasília, fiz questão de ter em mente exatamente no que eu estava acreditando, quais oportunidades eu iria abraçar e o que eu estava abrindo mão. Sem a menor sombra de dúvida: a distância da minha família sempre foi meu ponto fraco. Minha família vem primeiro, não tem jeito! Desde sempre eu soube que eu queria ter condições de ir correndo para SP sempre que sentisse necessidade, tanto é que sempre fui a pessoa da equipe que brigava para ter o recesso de Natal e não do Ano Novo. Natal na casa dos meus pais é regra.

Em 10 anos de Brasília, apenas não consegui passar a data com a minha família UMA VEZ. E QUE ARREPENDIMENTO POR NÃO TER BRIGADO MAIS! Fiquei tão mexida que peguei meus poucos dias de descanso do Ano Novo para encontra-los na praia. Saí de Brasília em uma sexta-feira à tarde, para chegar em SP à noite. Aluguei um carro e fui dirigindo até o litoral norte para encontra-los. Fiquei mais cansada do que descansada, mas valeu cada segundo dos 3 dias inteiros que eu consegui passar ao lado deles.

Meu núcleo familiar é pequeno. Tenho meus pais e meu irmão, 3 tios, um primo e minhas avós. Nunca perdi ninguém da família muito próximo, sempre tive pouquíssimo contato com meus avôs e com isso, quando um deles faleceu, para mim não foi algo muito tocante. Me sinto, ao mesmo tempo, privilegiada e amedrontada com essa situação. Tenho 32 anos e todo mundo que importa aqui comigo. Por outro, um medo enorme do dia que eles se forem. Os olhos enchem de lágrima só de escrever esse texto.

família vem primeiro

Nos meus primeiros meses de Brasília, eu muito me culpei por não estar ao lado deles em acontecimentos importantes, questões de saúde ou datas comemorativas. A solução que encontrei foi tentar ir com a maior frequência possível e me jogar em São Paulo sempre que o meu coração sentisse que precisava.

Por isso, sempre deixei muito claro em todos os lugares que trabalhei que eu tenho família em SP, que eu vou com frequência e que pode ser que em algum momento eu peça alguns dias para ficar com eles. Nesses pedidos, sempre me comprometi em realizar minhas entregas com a mesma qualidade e nos prazos estipulados. Eu nunca acreditei nessa regra que rege a vida profissional da 99% das empresas: ter que estar fisicamente no local de trabalho para entregar as coisas. Só que quando a gente entra em uma empresa, a gente precisa seguir as regras dela.

Em quase 15 anos trabalhando no mercado publicitário, principalmente em agências digitais, aprendi o quanto essa vida pode ser cruel no sentido de te fazer viver no trabalho (não se engane, muitas vezes, o ambiente super descolado das agências é muito para você não percebe quanto tempo passa ali dentro), virar noites e afins.

Dentro dessa rotina, a gente raramente tem um tempo para refletir se o que estamos fazendo realmente está alinhado com os nossos valores, com o nosso propósito de vida. Eu já trabalhei em lugares que me fizeram mal porque eu discordava da cultura da empresa, ou executava um trabalho para pessoas que simplesmente não me representavam. E, te digo algo: mercado publicitário é muito ame-o ou deixe-o. Não tem como seguir sem amor. Você não sobrevive.

Foi esse mercado que me fez conhecer meu marido, mas também foi ele que colocou meu casamento em jogo 3 meses antes dele acontecer. Eu e meu marido não nos víamos mais, nossa vida virou uma bagunça e parecia que a gente vivia em fusos horários diferentes.

Foi esse mercado que me ensinou que eu consigo executar muito mais do que imagino, que existem agências de diversos tipos, lideranças variadas. Já tive chefe que já foi do Exército a chefe que chegou chorando porque não conseguiu buscar a filha na escola (tinha mudado a tia  há 3 meses e essa mãe não conseguia buscar a filha durante todo esse tempo porque trabalhava na hora do almoço todos os dias. A nova tia não conhecia a mãe e não deixou ela levar a criança embora). Cada um me deu um chacoalhão. Entre momentos estressantes e questionamentos, consegui respirar e pensar o que eu quero da minha vida.

Foi esse mercado que me mostrou que eu tenho limites inegociáveis e que a minha família é o principal deles. Fico muito feliz por ter tido, na grande maioria das vezes, chefes muito compreensivos e que QUASE nunca questionaram, com frases como “Ah, mas você quer sair por isso? É só uma dor de barriga, logo passa!” Sabe por que isso me deixa feliz? Porque na minha opinião, a gente tem pontos fracos. Cada um tem o seu. É injusto uma pessoa medir pela outra o que é importante e o que é prioridade, cada um tem suas sensibilidades.

família vem primeiro

Também digo que fico feliz porque podia ser que eu passasse por lugares ou chefias mais irredutíveis, que me falassem “Ok, vai, mas não volta!”. E vamos combinar, a família é prioridade, mas a vida adulta é pagar boleto.

O grande ponto é achar um equilíbrio de entrega no trabalho, cumprindo com suas obrigações com qualidade sem deixar de estar presente para a sua família. Existem fases em que a gente se joga no trabalho, porque acha que isso merece muito da nossa energia e deixa tudo de lado! Mas eu vou te dizer algo:

Quando eu morrer (e você também), na minha lápide, não vai ter meu currículo do LinkedIn, com todos os cargos, prêmios e conquistas profissionais. Ninguém vai lá, me homenagear falando: “ela ficava até mais tarde todos os dias, entregava projetos como ninguém, tinha o timesheet sempre em dia, ela lotava a pauta e entregava tudo o que a gente pedia, atendia celular final de semana, pegava todos os plantões de final de semana,(coloque aqui a frase que melhor te representar…). As pessoas vão lembrar de mim pelo que eu sou. Independente do que você acreditar, te deixo a pergunta: o que você quer deixar de lembrança para esse mundo?

Eu quero ser a pessoa que decidiu morar longe da família mas que vira o mundo para estar do lado deles. Eu quero ser a pessoa que é uma excelente profissional sem que isso signifique deixar a família de lado, a que pega os dias de férias para ficar na casa dos pais mesmo, só pra se amontoar com os pais numa cama de solteiro e ver filme antes de dormir e comentar “Mã , o papai tá roncando muito! Acho que é hora de descansar.”

Precisa fazer hora extra? Precisa mesmo? Então a gente faz. Trabalhar no final de semana é realmente essencial? É. Então a gente trabalha. Mas muitas vezes eu sei que trabalhei até mais tarde quando não precisava necessariamente. Quando eu poderia resolver na manhã seguinte e ninguém ia morrer. O problema é que em diversas profissões é bonito ficar até mais tarde. É bonito falar que está tudo uma correria. Parece até que a gente é super importante no trabalho, né? Sempre fui contra ficar trabalhando fora do horário oficial, porque isso não é coisa de gente que está produzindo bem. Se a sua produtividade for boa, dentro do seu horário de trabalho, não tem porque ficar até mais tarde. A não ser que seja um pequeno período atípico: férias de um colega da equipe, um projeto super especial, um momento de reestruturação da empresa, enfim.

O problema é quando a exceção vira regra e quando alguém sai no horário ouve piadinhas como “Tá desmotivado, Fulano?”

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